segunda-feira, 23 de julho de 2007

Inferno das massas


Parece que, finalmente, a crise vai estrear dentro de campo no Parque São Jorge. O que se anunciava na semana passada, antes mesmo de partida contra o Internacional, talvez não fosse tão duro, afinal, se a derrota no Sul era esperada, o saco de pancadas Náutico não poderia opor resistência em pleno Morumbi. Mas opôs, mais uma vez, aliás, já que foi o Timbu que eliminou o Corinthians da Copa do Brasil. E o Timão agora pertence oficialmente à zona de rebaixamento.Consta que Paulo Cesar Carpegiani pediu demissão, mas a diretoria tenta convencê-lo a ficar. Curioso, em se tratando de Corinthians, mas o caso é que até mesmo a direção alvinegra já percebeu que, agora, não cola mais botar a culpa no técnico. Com os bons resultados do início do torneio, Carpegiani caiu nas graças do torcedor, que, ao contrário do que sói acontecer, não ia encarar com bons olhos sua substituição.Leio também nos jornais que o lateral Pedro alegou atraso nos salários e abandonou o hotel da equipe. Já estaria, segunda a imprensa portuguesa, acertado com o Sporting. Sem analisar o comportamento pessoal do jogador, o que vale aqui é a questão financeira do clube, que vai, inevitavelmente, explodir. O Corinthians está quebrado faz tempo por um motivo simples: tinha um pai rico, que lhe dava uma gorda mesada, e se acostumou a viver “à larga” com essa mesada. Quando se desentendeu com o pai, tinha um monte de prestação para pagar. Enquanto a relação ainda tinha alguma coisa, o pai ainda pingava um dinheirinho de vez em quando, mas agora o cara foi impedido de entrar no país, e seu dinheiro foi oficialmente decretado como “sujo”. Ou seja, o Corinthians não pode usá-lo. Não tem dinheiro pra pagar as contas de hoje, quanto mais as de ontem e de amanhã. E o que fez o clube grande, a lealdade de sua base, os jogadores do “terrão”, depois de dois anos de descaso, não parecem dispostos a, mais uma vez, segurar a onda. Até porque, em geral, falta-lhes qualidade.É uma teoria cara a este colunista: time grande, quando começa a “cair” no começo do campeonato, tem tempo para se recuperar. Desta vez, porém, nada indica que o Corinthians tenha qualquer base para isso. Pior: se cair como está, demora para voltar. Não interessa a ninguém, nem ao mais fanático palmeirense, o Corinthians nesse estado. Alberto Dualib tem que deixar a direção do clube, mas não sozinho. Todos os que o apoiaram desde sempre têm que ir junto. Muitos deles, aliás, para a cadeia. Sem isso, podemos imaginar um futuro sombrio para a massa alvinegra.Massas em baixaPor um lado, a situação do Flamengo é menos desesperadora do que a do Corinthians, já que tem dois jogos a menos do que o rival. Por outro, mesmo que ganhe os dois, conseguirá no máximo sair da zona de rebaixamento pelo saldo de gols. Pior: o Flamengo não ganha desde a segunda rodada do torneio. Ou seja: nada faz supor que vá ganhar agora. Pior: é o lanterna do campeonato.A tabela do torneio, aliás, traz uma situação ingrata para os times considerados “da massa” em seus estados. Os Atléticos mineiro e paranaense, por exemplo, têm uma bizarra simetria entre seus desempenhos desde a oitava rodada, quando o mineiro perdeu e permitiu ao paranaense que o alcançasse. Desde então, os dois empataram duas vezes, perderam duas, ganharam uma e voltaram a perder. Em pontos perdidos, ambos estariam hoje na zona da morte.A situação extra-campo dos três não pode ser comparada à do Corinthians, motivo pelo qual é mais provável que se recuperem na tabela. Merece, porém, uma olhada atenta. No Galo, por exemplo, a torcida se iludiu em 2006 não se sabe bem com o quê. A equipe continuou sob a mesmíssima direção, a que rebaixou o time e se viu envolvida em toda sorte de escândalo de corrupção. No Furacão, por mais que se modernize, o clube continua sujeito a interesses de um sujeito cujo apelido maldoso é Metralha.O Flamengo, por sua vez, é uma incógnita. Sua direção parece pelo menos ligada no que acontece no mundo, e tem evitado grandes bobagens. O triunfalismo, porém, nunca deixa de acompanhar o Rubro-negro, que foi convencido de que tinha uma equipe que podia pelo menos fazer bonito na Libertadores. Não tinha, e agora, sem Renato, tem menos ainda.Convencida pela imprensa chapa-branca de que seus clubes são “grandes”, e que por isso aspiram sempre a títulos, estas torcidas demoram a cair na real. Quando o fazem, porém, raramente é para cair na real mesmo, mas sim para culpar os dirigentes por terem feito exatamente o que a torcida pediu. O que torna muito mais difícil o processo de modernização.O Palmeiras, Botafogo e Grêmio estiveram lá, e hoje vivem dias bem melhores. Entre as coisas que aprenderam, a mais importante é a de que ouvir o torcedor é importante, mas com a cabeça no lugar. Demitir Caio Junior, como o Palmeiras quase fez, seria burrice. Gastar uma fortuna para segurar Claiton, como o Botafogo nunca pensou em fazer, seria outra. Coisas que a torcida queria, pediu e fez pressão. Hoje, deve perceber que estava enganada. Modernizar o futebol brasileiro passa pelo entendimento de que torcedor é torcedor, e dirigente é dirigente. Possível? Tenho dúvidas.

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