O gol que a Seleção Portuguesa sofreu aos 42 minutos do segundo tempo no último sábado, no empate em 2 a 2 com a Polônia no Estádio da Luz pelas eliminatórias da Eurocopa-2008, é o símbolo mais bem acabado da equipe comandada pelo técnico Luiz Felipe Scolari após o Mundial da Alemanha. O resultado surpreendente na Copa de 2006 (quando os Tugas chegaram a disputar a semifinal com a França e acabaram terminando a prova em quarto lugar), mais as despedidas de Figo e Pauleta da seleção, inauguraram à força uma nova era para uma equipe com pouca presença mídiatica e poucos resultados satisfatórios até então. Pois uma nova seleção sem rosto e sem permanência é o que vem desesperando a torcida lusa, que vê com incredulidade os resultados dos últimos meses.
O grande desafio de Felipão vem sendo, há pouco mais de um ano, o de renovar uma equipe que começa a ver surgir novos talentos, ao mesmo tempo que testemunha os sinais flagrantes de envelhecimento de outros jogadores. E esses processos de renovação de elenco costumam ser sempre traumáticos e prolongados. A atual situação de Portugal no Grupo A das eliminatórias européias para a Eurocopa-2008 é prova disso: como é possível uma equipe que se dá ao luxo de contar com estrelas do porte de Cristiano Ronaldo, Ricardo Quaresma, Deco, Simão Sabrosa, entre outros, estar ameaçada de não se classificar, num grupo que conta com “potências” do porte de Polônia, Sérvia e Finlândia?
Os Tugas ainda dependem só de si, mas podem se ver obrigados a ter que vencer todas as partidas que lhes restam, sob pena de um vexame histórico. Estão em terceiro lugar, com 9 jogos e 16 pontos, atrás da Polônia (10 jogos, 20 pontos) e da Finlândia (10 – 18). A Sérvia, com 9 jogos e 15 pontos, é a quarta equipe que também está viva na luta. A epopéia lusitana inicia-se já nesta quarta-feira (12 de setembro), contra a própria Sérvia, em Lisboa. Depois, em outubro, Portugal joga contra o Azerbaijão e o Cazaquistão fora de casa. Encerra sua participação em novembro, com dois compromissos em casa, diante da Armênia e Finlândia. Talvez tenha que ser obrigado a vencer este último compromisso, para ficar com uma das duas vagas do grupo. Como se vê, a tarefa não é impossível. Mas era necessário passar por tanto apuro e jogar um futebol tão desprovido de alma?
Figo mostra que ainda faz falta à seleção
O Mundial da Alemanha parece ter criado um ambiente de “ressaca” intensa na equipe portuguesa. O time sabe que tem qualidade e competitividade – para não dizer dos valores individuais. Mas, ao mesmo tempo, exibe certa soberba e arrogância – talvez por imaginar que é muito superior aos adversários. É como se Portugal tivesse que ser submetido a partidas com equipes mais importantes (como faz quando enfrenta a Inglaterra e a Holanda) para jogar com mais fibra e vontade. E é cada vez mais notória a falta de um comandante em campo, para assumir as responsabilidades e saber geri-las de modo positivo em prol do grupo. Cabia ao capitão Figo exercer esse papel. Sua saída, entretanto, causou um vácuo de poder entre os jogadores.
Cristiano Ronaldo é jovem e não tem o temperamento adequado para exercer esse papel em campo. O goleiro Ricardo e o meia Deco (alguns símbolos da “Era Scolari”) também estão longe de possuir o perfil desejado. E Felipão não tem mostrado a mesma garra com a qual nos acostumamos nos últimos anos, o que dá margem a múltiplas interpretações sobre sua permanência ou não à frente do selecionado português. Pepe, que foi desligado do grupo devido a uma lesão de última hora, talvez se encaixe melhor para exercer essa função. Mas quem garante que o zagueiro continuará a ser convocado caso Portugal tenha um novo treinador após julho de 2008, quando vence o contrato com Scolari?
Scolari volta a ser posto em causa em função dos resultados
A nomeação de Felipão como treinador de Portugal acendeu uma polêmica intensa no país em função da presença de estrangeiros no protagonismo do futebol da seleção nacional. Isso foi reforçado com a nacionalização às pressas do meia brasileiro Deco, no final de 2002, e agora a discussão volta à tona com a nacionalização do também brasileiro Pepe, zagueiro recém-transferido do Porto para o Real Madrid. Quando os resultados são satisfatórios e surpreendentes (como na Copa da Alemanha), a insatisfação dos portugueses vai para debaixo do tapete. Mas ela ressurge ainda mais com força quando alguma coisa vai mal – e os resultados nos últimos doze meses são, de fato, decepcionantes.
Notícia recentemente veiculada pelo jornal desportivo O Jogo dá conta de que Gilberto Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, já acenou com um novo contrato que estenderia a permanência de Felipão até o Mundial de 2010, na África do Sul. Para já, o treinador tem cometido três grandes pecados nos jogos das eliminatórias da Eurocopa: 1) não consegue manter uma equipe base, seja por força das lesões de alguns atletas, mas também devido a opções equivocadas (como a de promover o jovem zagueiro Bruno Alves, do Porto, a peça “imexível” da equipe); 2) insiste com a teimosia de manter Ricardo Quaresma de fora da equipe titular; 3) por último, e talvez o mais grave deles, parece ter perdido parte da chama que mantinha aceso o ânimo dos portugueses. Que ela não se apague precocemente nestas eliminatórias inexplicavelmente complicadas e turbulentas.
Golo de Letra
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
(Trecho do poema “Tabacaria”, do heterônimo Álvaro de Campos, de Fernando Pessoa)
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